A principal
diferença entre amor e paixão está na maneira como nos relacionamos com quem
amamos e com quem estamos apaixonados.
As novelas, a
literatura e as pessoas, de um modo geral, tendem a simpatizar muito mais com a
paixão do que com o amor, já que a paixão costuma ser mais intensa, mais
escancarada, mais visceral e mais avassaladora. A paixão grita, arranca os
cabelos e coloca fogo no sofá. Parece, assim, mais interessante. Porque
enquanto a paixão explode, jorra, se arrebenta em si mesma, o amor é calmo, estável,
suave e pacífico. Maçante, diriam alguns jovens.
No entanto,
somente na teoria, nas novelas e na literatura a paixão é mais interessante que
o amor. Porque a paixão cega, faz sofrer o apaixonado e, quase sempre, o alvo
desta paixão também.
Isso acontece
por que a paixão anda lado a lado, de mãos dadas, dando fungadinhas no pescoço
do ódio. Em um minuto você ama com a fúria de um vulcão; no outro, odeia com a força
de um terremoto. E tanto um vulcão quanto um terremoto causam estragos dolorosos
e irreversíveis para todos os lados.
O amor, não. Ele
é sereno. Não vem com arroubos de desejo, nem tampouco de raiva. Ele festeja as
conquistas do seu amado, e o apoia e se solidariza em suas derrotas. O amor não
exige um milhão de coisas para que haja amor. O amor não é possessivo nem
passional, e sabe raciocinar – coisa que a paixão praticamente proíbe. O amor
apenas existe, sem exigências, sem cobranças, sem querer que aquele que você
ama se encaixe dentro dos teus sapatos apertados. O amor não é egoísta. Amamos
quem tem defeitos, quem comete erros, quem não é como gostaríamos que fosse. Já
a paixão é individualista e egocêntrica. Costuma pedir demais e terminar da
mesma maneira que começou: repentinamente.
Por isso afirmo,
sem medo de errar, que não sou apaixonada pelo Internacional.
Não sou, nunca
fui, jamais serei.
Eu o amo, sim, e
muito, como amo meus pais, minha gata e meus cachorros, mas não sou apaixonada
por ele como fui pelo meu primeiro namorado – paixão esta que, hoje, me faz rir
e morrer de vergonha, tamanha sua competência para ser patética. A paixão é
patética, e quando termina, nos constrange fortemente do tudo que fizemos
enquanto apaixonados estávamos.
A paixão
envergonha depois; o amor, nunca.
E não digo que
amo o Internacional somente por que se trata de um grande time; o clube brasileiro
mais vencedor dos últimos dez anos e um dos 20 clubes que mais títulos conquistou
em todo o mundo - já carregando a alcunha de Campeão de Tudo.
Não amo o
Internacional só por que é um time estável, que passa segurança para o
torcedor, seja dentro de campo, através do entrosamento de seus jogadores (a
maioria, sublinhe-se, igualmente amante do time), seja fora, por meio de sua
administração consciente e segura (que, sublinhe-se outra vez, não é adepta dos
voluptuosos espetáculos que terminam em nada, nem de jogadores estrelinhas, que
chegam em carrões com óculos escuros maiores que um pneu de trator e fones de
ouvidos).
Não amo o Inter
apenas por que seu time de base é forte e aguerrido, e nem por que dali já saiu
jogadores do porte de Falcão e Batista, no passado, e de Pato, Nilmar e
Giuliano, no presente.
Não digo tudo o
que digo por causa de todas as incontáveis vantagens que se tem ao se torcer
por um time do gabarito, da grandeza e do peso do Internacional.
Digo que amo o
Inter nesta fase tão boa porque o amei, do mesmo jeito, em sua pior e mais
crítica fase.
Sim, meus
amigos. Se você, caro leitor, tiver menos de 10 anos de idade, é possível que
não saiba, mas nos anos 90 o Internacional não ganhava nem pelada de várzea,
nem par ou ímpar, nem rifa de colégio. Era doloroso torcer pelo Inter. Ele
entrava em campo e a gente já ia se perguntando: vamos perder de quanto hoje?
Títulos? Uma vaga
lembrança de um passado remoto, que eu não vi nem comi, só ouvi falar.
Eu nasci na
metade dos anos oitenta, e era desde o final dos anos setenta que o Inter mais
se arrastava do que qualquer outra coisa. Cresci vendo meu time enfileirar uma
derrota atrás da outra, e cujo máximo título alcançado era um discreto
campeonatinho gaúcho aqui ou acolá. Títulos internacionais? Faça-me rir. De internacional
o Inter só tinha o nome.
Se o Inter fosse
gente, teria sido uma pessoa que só me fez sofrer em minha infância e
adolescência. Que somente esmagou, pisoteou, dançou uma lambada e cuspiu em
cima do meu coraçãozinho aflito e vermelho. Se fosse uma pessoa, o Inter teria
sido alguém que me trouxe muitos problemas e dores de cabeça, já que defendê-lo
era tarefa inviável.
Mas eu defendia
sim, e como defendia! Estava ainda no colegial, e quase todos os meus colegas torciam
pelo vitorioso Grêmio - claro. E mesmo assim eu brigava, e fazia apostas que,
invariavelmente, perdia, e lutava com unhas e dentes ao lado do meu time, mesmo
sem ter como nem por que fazer isso.
Em nenhum
momento pensei em mudar de time, em abandoná-lo à própria sorte, em esquecê-lo. Mas ,
assim como fazemos quando uma pessoa que amamos nos faz sofrer, recolhi meu
amor à sua insignificância, e fiquei ali, de cantinho, sossegada e amando, lendo
um livro e vendo meu amor fazer cagadas sobre cagadas. Somente sorria um
sorriso complacente e balançava a cabeça, pensando: esse é o meu time. Que
sina!
Porém, se alguém
ousasse ofender o meu amor, eu acordava da minha letargia de torcedora sofrida
e rodava a baiana:
- Peraí! Ninguém
vai falar mal do Inter! Não na minha frente!
Da mesma maneira
que ninguém vai falar mal do meu pai ou da minha mãe na minha frente, mesmo que
tenha razão e motivos para tanto. O amor não permite isso. O amor defende
sempre.
O tempo passou e
eu, uma infante colorada sofredora, cresci e me tornei uma adulta colorada
sofredora. Aprendi, desde cedo, a aceitar os defeitos do meu amor sem
questioná-lo. Vestia minha camisa vermelha e branca e saía por aí, fingindo que
não via os olhares quase piedosos que me lançavam uns e outros:
- Coitada, é
colorada.
Sim, sou, e
serei até o fim. No céu e no inferno, na alegria e na tristeza, na saúde e na
doença, na lama e no caos, não importa o que digam.
Enfim.
Como disse, o
tempo passou e chegamos em um ano bastante emblemático: 2005.
Inter praticamente
com a mão na taça do Campeonato Brasileiro, tudo certo, ninguém acreditando no
que estava prestes a acontecer e eu pensando: agora vai!
Vai?
Não foi.
Mas, ao
contrário de todos os outros anos, não foi por que o Inter era um time medíocre,
formado basicamente por pernas de pau e dirigentes que não sabiam sequer se era
dia ou se era noite. Não foi por que fomos roubados. Escandalosamente roubados,
diga-se de passagem, por um time cujo nome prefiro não citar para evitar
urticárias. E não, meu amigo irmão camarada. Não há nenhuma possibilidade de
não termos sido roubados. Tanto que até mesmo o presidente do time ladrão, um
sujeito muito decente, afirmou, na ocasião, em um telefonema para um empresário
igualmente muito decente, gravado pela Polícia Federal:
.
“Como é que
ganhou ano passado? Ganhou, mas olha, se não tivesse aquela anulação de onze
jogos, nós estávamos fora. Porque O CAMPEÃO DE FATO E DE DIREITO SERIA O
INTERNACIONAL. Porque os últimos 5 jogos, nós tínhamos 14 pontos na frente, e
chegamos, entendeu, com um ponto só. ROUBADO.”
.
Se não acredita,
coloque no YouTube campeonato +
brasileiro + 2005 + Internacional + roubado e ouça com seus próprios ouvidos.
Fim do
argumento.
Mas óquei, a
gente se acostuma a apanhar. Pelo menos desta vez perdemos por um motivo
externo ao fato de que não ganhávamos nada por que éramos um time febril,
desorganizado e cheio de mancos.
Veio então 2006.
Que ano foi esse,
gente?
Eu continuava lá
no meu cantinho, sossegada, amando e lendo meu livro, resignada ao fato de que
amava um time que era todo errado. E sempre foi assim, desde o dia em que abri
o berreiro pela primeira vez na maternidade e meu pai colou na porta do quarto
do hospital o distintivo do Inter.
Não reclamava
porque, para mim, o Inter perder era o status
quo da vida. E eu o amava do mesmo jeito, porque era o meu time e não havia
o que ser feito.
2006.
Inexplicavelmente,
Inter levanta a taça Libertadores da América pela primeira vez! Nem comemorei,
porque levei umas 32 horas para acreditar:
- Ah mãe, será
que é mesmo? Não é pegadinha?
Não, não era. Eu
tinha 21 anos e o Inter era o melhor time da América toda. Vinte e um anos eu
esperei, e quando nem esperava mais, ele vem e me surpreende; quando eu já
estava indo dormir, ele bate na porta com um ramalhete de flores e champanhe
nas mãos.
O amor tem
destas coisas.
No final daquele
ano o Inter disputaria o Mundial de Clubes FIFA contra o Barcelona, o melhor e
maior e mais poderoso time do sistema solar.
Minha mãe dizia,
antecipadamente conformada:
- Gente, a maior
conquista é disputar o Mundial. Claro que não vamos ganhar do Barcelona, mas
chegamos até aqui, veja só que vitória, etc, etc!
Acho que era o
que pensava metade dos colorados.
Mas eu, assim
como a outra metade, pensava diferente.
Refleti: se
ganhamos a Libertadores, por que não podemos ganhar o Mundial? O Barcelona é
grande, mas não é dois, e dentro de campo são 11 contra 11, etc, etc.
Todavia não assisti
o jogo. Meu coraçãozinho sofrido, tão acostumado a ver o Inter perder,
habituado a viver sem maiores percalços futebolísticos, não suportaria tamanha
pressão.
Por sorte o jogo
era domingo de manhã. Sábado de noite ingeri muitos pingos de Rivotril e fui
dormir muito tarde, porque queria garantir que não acordaria de jeito nenhum
para assistir aquele fatídico jogo. Eu acreditava, e por que acreditava, não
podia assistir. Minha mãe não acreditava, e por que não acreditava, podia
assistir. Entendem?
Acordei perto
das dez horas da manhã de domingo assustada com os gritos. Gritos de quem?,
pensei. Poderiam ser da vizinhança gremista, comemorando nossa tragédia grega
pessoal. Foi quando identifiquei: os gritos eram dos meus pais. E mais: não
eram de desespero. Eram gritos de felicidade.
Saí correndo do
quarto com a cara toda amassada, os cabelos espigados e aquele bafo
característico, e encontrei meus pais na sala, abraçados e pulando em círculos,
igual duas crianças de quarta série.
Eles me olharam,
eu olhei para eles. O mundo parou por dois ou três segundos e então eles
gritaram:
- Ganhamos!!!
Como assim? Do
Barcelona? Com gol de quem? Gabiru? Quem é esse? O que? Entrou no lugar do
Fernandão? O que houve? Oi? Ficamos com nove em campo durante 5 minutos? Contra
o todo-poderoso Barcelona? Para, é piada. Não? É sério isso?
E eu não vi mais
nada.
Desde então o
Inter veio vindo, como quem não quer nada, até se fixar como um dos maiores e
mais vitoriosos times brasileiros da atualidade.
Não passou um
aninho sequer sem levar para casa pelo menos um título. Cresceu e se tornou
grandioso, fazendo valer seu nome, Internacional. De 2006 pra cá já levou outra
taça Libertadores para casa, e, não fosse um fadado goleiro que saltita utilizando
as nádegas (que diabo!), possivelmente teríamos levado nosso segundo Mundial de
Clubes. Mas isso já é outra história.
O que eu quero
dizer com todos estes caracteres é que, seja nos derrotistas anos 90, ou no
vitorioso século 21, meu amor, sereno e tranquilo, pelo Internacional, continua
intacto e imaculado.
E – bate na
madeira três vezes – se por acaso um dia o Inter despencar do topo onde agora
se encontra, meu amor ainda assim será o mesmo.
Porque meu amor
não é exigente, nem briguento; não pode ser contestado.
Meu amor não
destrói estádios nem quebra arquibancadas. Não coloca fogo em banheiros
químicos, não ameaça a família do técnico, não espanca jogadores. Meu amor não
picha muros ofendendo a direção, meu amor não apedreja ônibus.
Meu amor apenas
ama, e aceita o que vem.
Meu amor não é
paixão, nem fogo de palha, nem exige que, aquele a quem amo tanto, seja
exatamente conforme eu quero que seja: eu amo meu amor do jeito que ele é, na
primeira ou na quarta divisão, campeão de tudo ou campeão de nada.
Dá-lhe colorado!
E agora me deem
licença, que o Gigante, mais uma vez, me espera para começar a festa.
Biografia da autora:
Jana Lauxen é escritora e colorada. Autora do livro Uma Carta por Benjamin e campeã de tudo.
* Texto publicado originalmente no livro Literatura Futebol Clube (Ed. Multifoco, 2012, R$32).





